Mulheres exausta, homens com o doce privilégio de não pensar.

“Um saco a vida. Se vc é a filha que deu certo isso te sobrecarrega. Se você é ovelha negra também”
Li essa frase num grupo de Whatssap de amigas outro dia e ela me gerou uma reflexão, que compartilho aqui. Eu moro com minha irmã e faço parte de alguns grupos com mulheres, diferentes mulheres, com diferentes profissões, religiões, personalidades, signos, temperamentos, costumes, posicionamentos políticos e sociais. Umas namoram, outras tão juntadas, outras casadas, algumas solteiras, solteiras com vários rolos, solteiras sem rolos; tem grávidas, com filhos, com bebês, as que não querem ter filhos ou ainda não estão no momento. Mas, uma das coisas em comum entre todas elas, em seus desabafos diários é o seguinte tema: angústia em relação aos homens.
Todas elas em algum momento falaram sobre a diferença do que é esperado de nós mulheres e o que se espera dos homens. Esses desabafos têm nutrido em mim um certo ódio e ranço dos homens, não me levem a mal garotos, mas tá osso. Aí, eu que sou uma mulher hétero tenho criado certa dificuldade de me envolver com os caras. Já entro numa relação com o pé atrás, cheia de receios e reservas. E também vai rolando uma sensação a lá Xuxa de que não há homem pra mim no Brasil. Eu escuto os relatos de várias mães que estão esgotadas e cansadas de uma coisa que sempre aconteceu e vem sendo mais falado por agora, mas que está a um abismo de ser resolvida.
O gerenciamento da vida dos filhos e da casa, da vida em geral, o gerenciamento, principalmente das emoções, é sempre uma tarefa da mulher.
Pensa comigo que pra cada indivíduo resolver sua própria vida sozinho já é um trabalhão, agora coloca no pacote: criança, casa, outras pessoas da família. Esse ter que gerenciar a vida pra que tudo aconteça significa que tem de pensar: precisa ter café da manhã e da tarde, almoço e janta, então precisa ter arroz, então se acabou tem que comprar. Aí a criança não come legumes então tem que ter tomate que é a única coisa que ela come. Ai tem que começar a fazer a janta as 18hrs pq as 19:30 tem que comer pq as 20hrs vai tomar banho e as 21:30 tá na cama. Pq acorda as 6hrs amanhã pra ir pra escola. Aí a escola essa semana pediu uma cartolina em cima da hora, que a mãe já se organiza pra comprar na papelaria da esquina antes de subir no ônibus. Tem que colocar pra lavar as máscaras tbm, porque tão acabando. O tênis sujou ontem, junto com a rouba do balé e quinta tem de novo e tem que tá limpo.
Aí tem a mãe da mãe, que precisa de ajuda com médico. O chefe, a marmita da semana. O ônibus que atrasou. A limpeza da casa. A lista de compra, o calendário de vacinação. O dentista. Aí a criança passou mal, tem que ver se a vó fica com ela pq tem algo importante no trabalho. Ai organiza todas as vacinas. Isso tudo exige uma logística que eu conheço poucos, na verdade só um pai, homem, que lidou com isso. O que essa sociedade patriarcal gerou, foram homem absolutamente incapazes de construir um lar igualitário com suas parceiras ou participam efetivamente da criação de seus filhos. E mulheres que estão esgotadas emocionalmente, exaustas fisicamente e se equilibrando muito pra tentar manter tudo nos conformes.
São essas mesmas mulheres, que sofrem uma série de pressões de todos os lados, da família que vai opinar na criação dos filhos, da sociedade que vai estampar na cara que ela está magra demais ou gorda demais, entre mil outras questões estéticas. Na vida profissional que ela vai ter que fazer mil vezes mais e melhor que um homem pra ser ouvida ou reconhecida, ainda sim, menos que um homem. É isso, a sociedade nos ama, só se formos servir, se a gente questiona é doida; nos ama, só se for pra nos sulgar numa tripla jornada: trabalho, casa e filhos. Eu lembro que foi um marco na minha vida, quando em terapia eu percebi que estava me amando mais. Nesse dia, pra mim ficou claro que o feminismo não é opção, ele é REAL, se nos odeiam, nos sulgam, precisa existir um movimento que vai contra isso. Porque não existe uma pessoa no mundo inteiro que não veio de uma buceta. Sacou?
Sempre existem os homens que estão prontos pra dizer que não estão incluídos nessa norma, porque sim, isso é uma norma, não sou eu que digo, são pesquisas, seja as que eu mesma faço ouvindo minhas queridas amigas, ou as pesquisas com dados estastísticos que vemos no jornais. Mas, eu acho díficil que esses mesmos homens estejam corretos sobre sua própria autoanalise. Eu tenho minhas dúvidas, se esse homem que “divide” as tarefas quando vai cozinhar, por exmplo, não pergunta pra sua companhiera onde tá algo! Atualmente tem sido bem mais comum pessoas falarem de saúde mental, se proporem a terapias e a tratamentos. E de acordo com a pesquisa: minha bolha, minha vida, minhas friends. São 99% elas que estão em terapia. Porque exaustas e fartas foram tentar entender suas questões.
Esse movimento está criando mulheres muito fodas. Potentes. Mulheres que estão cansadas de ocuparem esse lugar de gerenciamento da casa, da vida, dos filhos, do mundo, pra no final os lugares de poder e os lugares, principalmente do privilégio de não precisar pensar, em qual formato a cenoura tem que ter ficar? ou em o que vamos jantar? ser de um homem. São muitas questões, que eu poderia fazer inclusive uma série de textos. No instagram todos os dias viraliza um nova publicação dizendo sobre mulheres que estão exaustas, mulheres que estão doentes e não tem ninguém pra cuidar, mães que são solo mesmo morando com pai dos seus filhos; entre mil outras questões. O que fica pra mim é, até quando?
Quando tive essa reflexão a gente estava falando sobre terapia. E pra mim, ficou muito claro, eu que sou uma mulher hétero solteira, que uma parte grande dessa exaustão das minhas amigas, vem justamente com um fundo emocional. Porque em alguns casos, existe divisão de tarefas, divisão do tempo que se passa com filho, divisão das responsabilidades, das contas, mas o que eu não escuto muito é uma divisão do cuidado com emocional, seja do casal, da família, ou sequer o próprio. Várias delas estão lidando com suas questões, seus traumas, buscando mais inteligencia nesse campo, seja através da terapia em si, ou em podcasts, leituras, programas de tv. Mas, nesse caso, quase não tem partilha, é muito comum que eu escute de uma amiga que ela tem que inditificar o que seu parceiro sente, lidar com aquilo e as vezes até informar ele mesmo.
Afinal, estamos vivendo uma sociedade que criou homens incapazes de sentir e lidar com seus sentimentos? Essa é mais uma tarefa das mulheres, mais uma jornada, entre trabalho, casa, filhos, vida em sociedade, também está o desvendar e ensinar aos homens sobre o que eles setem? Eu queria que esse fosse um problema simples e fácil de resolver, mas eu sei que estamos longe de uma mudança. Sabe, minha fé, ela é muito poderosa, pq eu sei que essas mudanças serão feitas justamente pelas mulheres e não existe um ser mais capaz que nós.